Os cachorros tristes dos quintais do Cambuci
- João Barros
- 19 de fev.
- 3 min de leitura

Wikimedia, Saly Noémi
O que fazer sem um céu repleto de uivos?
Faz dias que estou para escrever sobre os cachorros tristes que vivem boa parte de suas vidas entediantes presos em quintais 3m X 5m no Cambuci, mas uma reforma infinita que muito me aborrece em uma casa que nem sequer é minha tem me tomado tempo, tanto tempo, com seu previsível enredo kafkiano de arengas com a senhoria, súplicas de pressa a meu pai, que conduz a reforma, e um cansaço inarredável, um desgaste com o bairro que mais amei e onde mais vivi, que se acumula, e que surgiu pela primeira vez há dois anos, como um prenúncio de partida.
De modo que faz dias que estou para escrever sobre esses cachorros tristes de uma beleza enclausurada, murcha pela crueldade do cuidado ignorante e, quando finalmente consigo parar e sentar para escrever, tudo que passa pela minha cabeça são opiniões impopulares, ainda que sinceras e a mim incontestáveis, como o fato de que Yoko Ono é uma artista tão grande quanto os Beatles e fundamentalmente maior que seu esposo (que sabia disso e que sabia, como poucos, reconhecer o sublime).

Lennon, o beatle menor entre três principais compositores do grupo e cujo principal elemento que trouxe para o conjunto foi o jorrar da inspiração negativa nos seus companheiros, o brilho da quebra e da dor, que irradia de todos aqueles circundados pelo campo da fantasia narcísica. Let me take you down goo-goo g'joob.
Mas de que valem essas comparações espúrias e cruéis? O mal do mundo é a comparação, disse Camus, e de repente me transporto para o quintal da residência universitária na UFRN, para a tarde de calor ameno em que li “O Estrangeiro” e senti-me, com 18 anos e por um instante, diante da essência do ser.
É claro que a dialética negativa não foi a única contribuição de Lennon para os Beatles. Não foi isso que eu disse mas, se deixei essa impressão, há uma falha no discurso. Lennon acessou verdades absolutas e por vezes traduziu, em lampejos e labirintos, as imagens do divino. Parecia não temer o divino. Se confortava perto dele e crescia perto dele, símbolo divino que era like the moon and the stars and the sun.
Isso posto, é o fim da digressão e, enfim, penso que há poucos seres que acessam mais verdades absolutas que os cães.
Conforta-me, aliás, pensar que os cachorros tristes presos nos quintais, com todo o tempo que tem para refletir e ver e sentir o tempo, devem ser os que mais acessam o real, o divino, a essência do ser.
O desmazelo dos humanos acaba por ser favorável ao movimento espiritual dos cachorros tristes que vivem nos quintais. Algum ganho, afinal, eles precisariam colher e cães que já seriam sábios viram monges. A inocência e a dor transformam-se no ascetismo que conduz ao céu. O ar maltrapilho só lhes favorece. Mendicância e divindade. O auto do cães. E se não há um céu dos cachorros, o que há? E como seria possível perdoar os artífices do cárcere do golden mais triste do mundo que vive em frente a minha casa com seu ar de enfado e de iluminação ou do salsicha de olhos coloridos que tanto amo e que tudo vê na Comendador Bento Pereira sem um céu repleto de uivos?
Corte para a Vila Madalena, em que há um cão que chora todas as manhãs e que me faz lembrar do grito infinito da mulher no poema de Carver sobre o cãozinho atropelado.
Como seria possível perdoar os artífices do cárcere? É mesmo possível?